Ciclo Menstrual

ENDOLAB Ciclo menstrual

A alça que inverte de sinal no meio do caminho

Grade

O estradiol age sobre o GnRH em dois sentidos opostos. Estes dois controles são os dois braços, e a passagem de um para o outro é o que dispara a ovulação.

Braço negativo 12%

O freio que atua quando o estradiol está baixo. Em zero, volta-se ao modelo publicado, que só tem o braço estimulador.

Limiar do braço positivo 185 pg/mL

Concentração de estradiol a partir da qual o estímulo supera o freio. Subir este limiar exige um folículo maior para ovular.

Crescimento folicular 100%

Velocidade com que o folículo dominante cresce sob estímulo do FSH.

Sensibilidade ao FSH 100%

Valores altos significam que é preciso mais FSH para o mesmo crescimento: resistência folicular.

Ruptura pelo LH 100%

Eficiência com que o pico de LH rompe o folículo e forma o corpo lúteo.

Regressão do corpo lúteo 100%

Velocidade com que o corpo lúteo se desfaz. Mais rápido é fase lútea curta, com progesterona insuficiente.

Síntese de estradiol 100%

Atividade da aromatase, que converte androgênio em estradiol. Reduzir é o efeito de inibidores de aromatase.

Estradiol por folículo 100%

Quanto estradiol cada unidade de folículo produz. Cai com o esgotamento da reserva ovariana.

Duração90 dias
Fundo

As linhas verticais marcam as ovulações. O quadro pequeno mostra o efeito do estradiol sobre o GnRH em função da própria concentração de estradiol. A curva parte de um patamar, que é o freio, passa por um mínimo raso e depois sobe rápido, que é o estímulo. O ponto vermelho é onde a paciente está naquele dia: vê-lo subir a rampa da direita é ver a alça inverter de sinal. Com o braço negativo no valor padrão de 12% o mínimo é discreto; aumente esse controle para 30% ou mais e o vale aparece com clareza.

LH FSH Estradiol Progesterona Folículo Corpo lúteo
Duração do ciclo
Ovulações
Pico de LH
Estradiol (pg/mL)
Progesterona
FSH (mUI/mL)
Escolha um cenário ou ajuste os controles e clique em Simular. O simulador descarta os primeiros meses para que você veja o comportamento estabelecido, e não o transitório do começo.

Modelo de Chen e Ward (Math Med Biol. 2013), com os parâmetros publicados. Uma modificação foi acrescentada e está declarada: no modelo original o estradiol apenas estimula o GnRH, e com só esse braço a falência ovariana sai com gonadotrofina baixa, ao contrário do que acontece. O braço negativo do estradiol foi incluído como controle próprio, e pô-lo em zero devolve o modelo original. Dois limites conhecidos: a amplitude do FSH aqui excede a faixa clínica, algo que os próprios autores registram em relação aos dados de origem, e a elevação da gonadotrofina na falência ovariana é menor que a real.

Roteiro de prática

O hormônio que freia e depois estimula

Duração estimada: 55 a 65 minutos · Pré-requisitos: retroalimentação negativa e noção geral das fases do ciclo menstrual

Antes de começar

Nos outros cinco eixos deste laboratório, negativo é negativo o tempo todo: o hormônio final sempre freia quem o mandou produzir. Aqui não. O efeito do estradiol sobre o hipotálamo é a soma de dois termos com sinais opostos:

efeito sobre o GnRH = freio (domina em estradiol baixo) + estímulo (domina em estradiol alto)

Durante quase todo o ciclo o primeiro termo manda, e o estradiol se comporta como qualquer hormônio de alça negativa. No meio do ciclo, quando o folículo dominante já está grande e o estradiol ultrapassa um limiar, o segundo termo passa a mandar. O mesmo hormônio, na mesma pessoa, inverte de sinal.

O que costuma confundir: tentar decorar em que dia cada hormônio sobe. Não é preciso. Se você entender que a inversão acontece quando o estradiol passa de um limiar, a ordem dos eventos deixa de ser lista e vira consequência. O quadro pequeno no canto do gráfico desenha exatamente essa curva: acompanhe o ponto vermelho atravessando o vale.

1 Ver a alça inverter de sinal

Hipótese a testar

O pico de LH acontece porque a hipófise recebe uma ordem nova, vinda de fora da alça, num dia determinado do ciclo.

Procedimento

  1. Cenário Ciclo normal. Coloque a varredura em Lento e clique em Simular.
  2. Acompanhe ao mesmo tempo a curva do estradiol e o ponto vermelho no quadro pequeno.
  3. Antes de tudo, suba o braço negativo para 30%: o vale da curva fica visível. Pause no dia em que o ponto vermelho está nesse fundo e anote o estradiol.
  4. Continue e pause no dia do pico de LH. Anote o estradiol e onde está o ponto vermelho.
  5. Pause também dois dias depois do pico de LH e anote a progesterona.

Tabela de registro

Momento Dia Estradiol LH Progesterona O estradiol está freando ou estimulando?
Fundo do vale (braço a 30%)
Subindo, antes do pico
Pico de LH
Dois dias depois

Para responder

  1. Alguma coisa de fora da alça mandou a hipófise disparar, ou o gatilho veio do próprio estradiol? A hipótese do início sobreviveu?
  2. Que valor de estradiol o ponto vermelho tinha quando começou a subir de novo no quadro pequeno? Compare com o limiar de 185 pg/mL do controle.
  3. Por que o estradiol precisa ficar alto por vários dias, e não apenas atingir um valor num instante? Olhe a forma da curva e o tamanho do folículo.
  4. Depois do pico, a progesterona sobe e o LH volta ao basal imediatamente. Que termo do modelo é responsável por esse desligamento?
  5. Escreva em uma frase por que a ovulação acontece “no meio” do ciclo sem que exista nenhum calendário no corpo.
2 Desligar o freio e ver o que se perde

Pergunta central

Se o que produz a ovulação é o braço estimulador, o braço que freia é dispensável?

Procedimento

  1. Cenário Ciclo normal. Anote duração do ciclo, FSH e estradiol basal.
  2. Leve o braço negativo a zero e simule. Anote os mesmos valores. O ciclo continua?
  3. Agora rode o cenário Falência ovariana, que reduz muito a produção de estradiol, primeiro com o braço negativo em 12% e depois em zero.
  4. Compare o FSH das duas versões.

Tabela de registro

Situação Braço negativo Ciclo FSH Estradiol
Normal12%
Normal0%
Falência ovariana12%
Falência ovariana0%

Para responder

  1. Sem o braço negativo, o ciclo normal continuou funcionando? Então para que serve esse braço?
  2. Na falência ovariana, o que aconteceu com o FSH em cada versão? Qual das duas corresponde ao que se mede numa paciente na menopausa?
  3. Complete: numa paciente com estradiol baixo, o FSH alto é evidência de que o defeito está no …, porque a hipófise só sobe assim quando …
  4. Este simulador informa que a versão com o braço negativo é uma modificação do modelo publicado. Por que os autores originais podiam prescindir dele, e nós não?
  5. Que outro exame do próprio laboratório usa a mesma lógica de “hormônio periférico baixo com hormônio hipofisário alto localiza o defeito”? Cite dois.
3 Estrogênio o tempo todo, progesterona nunca

Hipótese a testar

Quem não ovula tem estrogênio baixo, e por isso não menstrua.

Procedimento

  1. Rode Anovulação crônica e anote a faixa do estradiol e o pico de progesterona.
  2. Rode Resistência ao FSH e anote os mesmos.
  3. Compare os dois com o Ciclo normal, prestando atenção em quanto tempo o estradiol passa acima de 100 pg/mL em cada caso.
  4. Nos dois cenários anovulatórios, olhe o painel do folículo: ele cresce e some, ou fica parado?

Tabela de registro

Cenário Ovulações Estradiol mínimo Estradiol máximo Progesterona máxima O endométrio recebe progesterona?
Ciclo normal
Anovulação crônica
Resistência ao FSH

Para responder

  1. Na anovulação crônica, o estradiol estava baixo? A hipótese do início sobreviveu?
  2. Nos dois cenários a paciente não ovula, mas os estradióis são muito diferentes. Escreva a frase que separa as duas anovulações.
  3. No cenário de estradiol sustentado, o endométrio recebe estímulo proliferativo continuamente e nunca recebe o freio da progesterona. Que consequências clínicas você esperaria a curto prazo e a longo prazo?
  4. Se o tratamento fosse dar progesterona por alguns dias e depois retirar, o que aconteceria com o endométrio? Por que isso se chama sangramento de privação?
  5. Nas duas anovulações, qual delas responderia a um medicamento que aumenta o FSH? Justifique pelo mecanismo, e não pelo nome da doença.
4 Qual metade do ciclo muda de tamanho?

Pergunta central

Ciclos de 24 e de 34 dias podem ser os dois normais. O que varia entre eles?

Procedimento

  1. No Ciclo normal, meça no gráfico a distância entre o começo da subida do estradiol e o pico de LH, e depois entre o pico de LH e o fim da progesterona.
  2. Reduza o crescimento folicular para 75% e refaça as duas medidas.
  3. Devolva a 100% e rode Fase lútea curta, que acelera a regressão do corpo lúteo. Refaça as medidas.
  4. Anote também a progesterona máxima em cada caso.

Tabela de registro

Situação Ciclo total Antes do pico de LH Depois do pico de LH Progesterona máxima
Normal
Crescimento folicular 75%
Fase lútea curta

Para responder

  1. Ao mudar o crescimento folicular, qual das duas metades mudou de tamanho? E ao mudar a regressão do corpo lúteo?
  2. A segunda metade do ciclo é notoriamente mais constante que a primeira, em torno de quatorze dias. O que no modelo explica essa constância?
  3. Uma paciente relata ciclos de 24 dias. Só com essa informação, você consegue dizer qual fase está encurtada? O que você pediria para descobrir?
  4. Na fase lútea curta, a progesterona máxima foi suficiente? Por que isso importa para quem está tentando engravidar?
  5. Dosar progesterona sete dias antes da menstruação esperada é um exame clássico. Com base no que você mediu, explique por que esse é o momento escolhido.
5 Quão frágil é essa alça?

Hipótese a testar

Um sistema com retroalimentação é robusto: pequenas perturbações são corrigidas, e só alterações grandes causam falha.

Procedimento

  1. A partir do Ciclo normal, reduza a síntese de estradiol em passos: 95%, 90%, 85%, 75% e 65%. Simule cada um com registro de 120 dias.
  2. Anote em qual passo o ciclo deixa de existir.
  3. Repita o exercício com o crescimento folicular, reduzindo de 100% até 55%.
  4. Em cada caso, anote se o estradiol ficou alto ou baixo depois que o ciclo parou.

Tabela de registro

Parâmetro reduzido Valor Ovulações em 120 dias Estradiol resultante
Síntese de estradiol95%
Síntese de estradiol85%
Síntese de estradiol65%
Crescimento folicular85%
Crescimento folicular70%
Crescimento folicular55%

Para responder

  1. Que tamanho de perturbação bastou para abolir a ovulação? A hipótese do início sobreviveu?
  2. Compare com o simulador do eixo tireoidiano, onde metade da glândula pode ser perdida sem que o T4 saia da faixa. Por que este sistema é tão mais frágil?
  3. A resposta está na forma da alça: qual característica do braço estimulador faz com que ele funcione como um interruptor, e não como um regulador suave?
  4. Uma corredora de longa distância, uma pessoa em restrição alimentar severa e uma paciente sob estresse prolongado podem parar de ovular. Com o que você viu, isso exige uma doença da hipófise ou do ovário?
  5. Do ponto de vista evolutivo, faz sentido que a ovulação seja fácil de desligar? Argumente nos dois sentidos.

Síntese

Escreva, sem consultar o roteiro, a explicação de por que existe um pico de LH no meio do ciclo. O texto precisa passar por quatro afirmações, nesta ordem, e nenhuma delas pode ser um dia do calendário:

  1. O que o FSH faz na primeira metade e por que ele cai depois.
  2. Por que o estradiol sobe cada vez mais rápido conforme o folículo cresce.
  3. O que muda no efeito do estradiol quando ele passa de um certo valor.
  4. Por que, depois da ovulação, o sistema volta ao regime negativo.

Se o seu texto precisar dizer “no dia 14”, ele ainda não está pronto.

Para ir além

Neste simulador o contraceptivo hormonal não aparece, mas você já tem tudo para prever o que ele faz. Um comprimido combinado mantém estrogênio e progesterona em nível constante, moderado, todos os dias. Pense no quadro pequeno: onde ficaria o ponto vermelho, parado, num nível intermediário? Ele conseguiria alguma vez chegar à região onde o estímulo supera o freio? E o que a presença constante de progesterona faz com o GnRH, segundo a equação do modelo? Depois procure como a literatura descreve o mecanismo principal do contraceptivo combinado e compare com a sua previsão.

Modelo. Chen CY, Ward JP. A mathematical model for the human menstrual cycle. Math Med Biol. 2013;31(1):65-86, com os parâmetros na forma tabulada por Bois FY e colaboradores. A linhagem desses modelos começa em Schlosser e Selgrade (1999) e Harris-Clark, Schlosser e Selgrade (Bull Math Biol. 2003;65:157-173), e foi ajustada contra os dados clínicos de McLachlan e colaboradores (1990) e Welt e colaboradores (J Clin Endocrinol Metab. 1999;84:105-111). Uma modificação foi acrescentada e está declarada no simulador: o braço negativo do estradiol sobre o GnRH, ausente no modelo original, sem o qual a falência ovariana sai com gonadotrofina baixa. Para preservar a duração do ciclo com esse braço ligado, a taxa de crescimento folicular foi reduzida de 2,1 para 1,68 por dia. Pondo o braço negativo em zero e o crescimento em 2,1, retorna-se exatamente ao modelo publicado. Dois limites conhecidos: a amplitude do FSH excede a faixa clínica, o que os próprios autores registram em relação aos dados de origem, e a elevação da gonadotrofina na falência ovariana é menor que a real.